Mia Couto. Ainda o livro “E se Obama fosse africano”

É fácil culpar os outros.
Alguém desconhecido é sempre o réu da minha indiferença.
Eu habito o lado dos bons. Da outra banda é gente que não presta.
E o mundo segue a meu lado cada vez mais um não-lugar.

Ai de mim
que instalei no meu coração
a perfeição como rotina,
que temo o ódio e fujo do amor,
que uso guarda-chuva
no bom e no mau tempo,
que arranco por nada ou quase nada
a raiz ao pensamento.

Foi então que olhei o Céu.
E não vi luz na Estrela Polar.
Até aquela criança que me olhava
deixou de sorrir

Tomei o leme.
Apertei-o
como quem espreme o passado.
Pus de lado a tentação
de sonhar acordado.
E nesse segundo, a cantar,
sem medo do charco,
ou do mar ou do fundo
juntei os cacos do mundo
no barco
e voltei a sonhar.

Este novo mundo é para mim.
Mas para ti também.